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sábado, 22 de novembro de 2014

Vivemos num país cada vez mais pobre…


Vivemos num país cada vez mais pobre…

Visitei, por mero acaso, uma casa decrepita, onde 88 anos se arrastam por entre trouxas de roupa esquecidas em todos os cantos e moveis antigos cobertos de lixo e memórias, que me dizem que noutro tempo a vida foi bem diferente.

Acompanhei uns colegas que iam levar comida a um cão abandonado e dei comigo num lugar que me deixou um aperto no coração.

Construímos muros enormes, onde aprisionamos almas que habitam em corpos de velhas viúvas e homens velhos perdidos. São casas tão velhas quanto os seus inquilinos, que desmoronam ao mesmo tempo que a vida se apaga lentamente na solidão do seu abandono.

Vivem em lugares onde passamos todos os dias, sem que imaginemos que atrás daquelas paredes existem seres esquecidos. Casas que são becos frios húmidos e sujos, de paredes altas e vazias que se erguem como mortalhas onde vão morrendo todos os seus sonhos e aos poucos se apagam também as memórias.

É este o mundo que construímos e talvez o futuro de muitos de nós.

Temos lições a tirar até mesmo da mais paupérrima miséria.
Foi esta velha senhora que acolheu o cão que alguém abandonou à sua sorte. É ela também que deixa entrar para se sentarem ou dormirem os sem-abrigo que vagueiam nas ruas.

Lá estava um velho e sujo colchão pronto para alguém que por lá apareça e sentados num canto dois olhos humanos, perdidos num rosto imundo e cheio de pêlos.
Talvez seja o cão o salvador de quem lhe abriu os braços, pois a senhora por não poder andar, pediu ajuda para o passearem e foi assim que relataram o caso à segurança social.

Este é apenas mais um caso dos muitos e tristes que vou conhecendo.
Sou abordada nos supermercados por gente com fome. Pessoas com vergonha de pedirem e que ao fim do dia nos dizem que um iogurte já era bom, porque estão em jejum. Fui beijada outro dia, entre lágrimas de gratidão porque fui solidária, com alguém cansado de bater a muitas portas sem que tenha tido resposta. Há casas sem água, luz ou gás, porque os seus habitantes estão desempregados.

Este é o panorama geral do país.

Mas nas notícias a crise passou…e o desemprego diminuiu.
Não contam para os números os velhos que morrem por falta de assistência, os muitos homens e mulheres que vagueiam pelas ruas porque sem trabalho lhes foram roubadas as casas, a família e a dignidade.

Não contam os que perderam o direito a estar inscritos no serviço nacional de emprego, porque o tempo acaba e eles deixam de fazer parte dos números e passam a ser “pedintes envergonhados”.

Nem contam os muitos que foram obrigados e emigrar, para conseguirem sustentar os que deles dependem, deixando assim o vazio de se criar uma família sem pai.

A crise não passou – pelo contrário ela cresce todos os dias em muitos dos nossos lares, perante a nossa passividade e a impunidade dos que muito mal nos governam, mas muito bem se governam.

Vivemos num país cada vez mais pobre, mas que meia dúzia anuncia ao mundo,
Como cada vez mais rico.

Benvinda Neves
Novembro