" Memórias, Verdades e Mentiras - História 7"...
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Como digo tantas vezes, a infância caminha conosco a vida toda
e mesmo que a gente não tenha consciencia,
ficaram guardados "algures" dentro de nós,
momentos que por uma ou outra razão "acordam"
por associação no presente.
Hoje, ao percorrer o Trilho da Ribeira das Vinhas,
deparamo-nos, uma vez mais, com um ritual de macumba, ou feitiço,
ali deixado, por alguém que acredita que a oferenda de flores amarelas
e fruta coroada de moedas terá "poder" de exercer energia no seu universo.
Trouxe-me à memória um coração de feltro vermelho,
colocado atrás da porta de entrada,
acompanhado dos cinco amuletos da sorte:
a estrela de David, a lua, a figa, o corno e a ferradura.
Este coração era espicaçado com uma tesoura aberta,
pela tia, que de joelhos, fazia umas rezas
em que eram mencionados diabos arrastados pelos cabelos.
Os amuletos andavam sempre com ela, para a protegerem.
O mundo desta tia, amiga e querida para nós,
era povoado de forças malignas que a apavoravam
e de energias que ela dizia tentar afastar,
mas que evocava em rituais, constantemente.
Lembro-me que teria eu uns cinco anos,
quando fui com ela ao rio, deitar uma mona de trapos,
com os braços amarrados, para que não pudesse nadar
e com alfinetes espetados no coração,
que representavam a dor que alguém tinha causado a outra,
por infidelidade conjugal.
Não tenho memória de me ter sido revelado o nome da
"mona humana"- nem me foi dito o resultado do feitiço.
Outra ocasião, com a mesma idade, fui colocada às escondidas,
na despensa da casa da tia e instruída para fingir que
"tinha sido possuída pelo demônio".
Devia gemer e contorcer-me para ser credível
e quando a tia, que acreditava piamente na encarnação dos demônios,
perguntasse o que queria para me libertar,
eu deveria gritar "um saco de bifes".
Eu era competente no teatro, a tia temente dos demônios
e claro que o pai obteve o saco de bifes.
A pobreza e a fome são capazes de atos de desespero.
Claro que o relacionamento deles azedou,
quando a tia descobriu a verdade.
Talvez pelo muito tempo na despensa pequena e escura,
ainda tenho claustrofobia em algumas ocasiões.
Em contrapartida, demônios, macumbas e feitiços
não conseguem ter credibilidade alguma em mim.
Moral da História:
Como tão bem disse Fernando Pessoa:
"O Inferno e o Paraiso estão dentro da mente humana - que
ninguem duvide".
Benvinda Neves
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