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segunda-feira, 26 de maio de 2014

O meu “Elo” SOS…

(tempo de férias - anos 60)

O meu “Elo” SOS…

Misturam-se as histórias e todos somos protagonistas de muitas ao longo das nossas vidas. É o conjunto das várias que compõem o nosso passado e faz quem somos hoje.
Ao longo do tempo, todos temos um “antes de…” e um “depois de…” é assim que catalogamos os momentos marcantes – os mais e os menos felizes.

Podemos até ter tido duas infâncias – distintas, completamente diferentes, como se uma nos pertencesse e outra nos tivesse sido contada.
Será difícil para quem viveu uma vida “normal” perceber a que me refiro, mas todos os que foram Crianças -SOS, sabem o que quero dizer sem necessidade de explicação.
Para nós há um antes Aldeias SOS, que nos reporta às nossas famílias biológicas e um pós que nos tornou membros desta Grande Família SOS.

Convidaram-me a dar o meu testemunho sobre a minha vivência na Associação das Aldeias SOS e a ligação que mantenho até ao presente.
Aqui estou a tentar deixar por palavras o que será sempre menos que aquilo que o coração sente, pois tenho a certeza que os nossos sentimentos são sempre maiores que as formas que encontramos de os dizer.

Entrei para a Aldeia de Crianças SOS de Bicesse, tinha quase 7 anos e lá vivi até aos 21.
Não vou falar do “antes de…”, pois toda a gente sabe os motivos que levam crianças a Instituições como a nossa.
No meu tempo de criança era condição ser-se órfão e pobre.
Hoje, com todo o desenvolvimento social, evoluiu também o apoio às famílias e já não são só os órfãos-pobres que são acolhidos, mas também as crianças maltratadas ou negligenciadas pelos progenitores.
Todos nós tivemos aquilo que refiro como duas infâncias.
Há momentos da vida que guardamos só para nós – selados no mais fundo do nosso ser. Essa seria talvez a razão que nos levava a aceitar os “meninos novos”, sem fazermos perguntas e abrindo sempre os braços como fazem todas as crianças, ao prazer de ter novos amigos.
Nunca me interroguei sobre isto, até há muito pouco tempo, quando alguém me questionou sobre um assunto da família biológica de uma afilhada SOS que tenho e a minha resposta foi “não sei, nunca lhe perguntei, pois aceito sempre apenas o que tem vontade de me contar”.
Não me tinha perguntado antes sobre o porquê de sermos assim, mas aceitávamo-nos sem necessidade de saber de onde vínhamos e a razão – éramos “iguais”.
Ainda hoje desconheço a história do “antes de…” da maioria daqueles que foram meus amigos de infância. Talvez esta seja uma das provas de que uma criança “ama incondicionalmente” – sem juízos ou explicações.
Quando chegavam “meninos novos” à instituição, recebíamo-los em ambiente de festa e ressalvando algumas excepções, era sempre curto o tempo que demoravam a integrar-se nas nossas brincadeiras e vida comunitária. Tínhamos um grande sentido “protector” uns com os outros – protecção aos que vinham de novo e aos mais pequenos. 
Os mais pequenitos tinham sempre muitos colos maternais, pois todas os enchíamos de mimos.


(eu com um dos pequenitos - 1974)

A nossa infância SOS foi comum à de muitas outras crianças que conhecia da escola pública que frequentávamos.

Vivíamos distribuídos por núcleos familiares – uma mãe e 9 crianças por casa. Tínhamos um chefe de Aldeia que representava a figura masculina e que dava apoio a todas as casas. De entre os vários que desempenharam este papel, houve um que que conquistou o coração de todos nós - o “Tio Mário”. Ainda hoje surge na conversa dos mais velhos e é recordado com carinho, pela atenção “especial” que conseguiu dar a cada um.

(a minha família SOS - com a mãe Helena - 1970 e 1973)

Tínhamos actividades comunitárias, no exterior e dentro da própria Aldeia, como missa, canto coral, teatro, filmes, piscina e as férias em conjunto no acampamento, para além das brincadeiras do dia-a-dia que eram feitas ao ar livre, no campo de jogos que ficava no centro da Aldeia.

Impossível não criar laços, quando se dividem os sonhos, se brinca “a meias” e se é castigado em conjunto pelas asneiras partilhadas.
Crescemos como irmãos, primos e primas – é a infância que une os ex-residentes. Claro que como em qualquer lar temos as nossas preferências e maior ou menor compatibilidade em relação a “feitios”. Mas a seguir aos laços de “sangue” há os “laços SOS”, que nos fazem sentir membros da mesma família.

É uma alegria imensa quando nos reencontramos podermos partilhar recordações de todos os momentos que vivemos juntos.
Como diz uma sobrinha, que mais pode desejar uma criança “que uma montanha de outras crianças no mesmo quintal para brincar?”- fomos muito felizes.
Nunca me afastei muito deste meu Lar – onde sou sempre recebida com sorrisos e carinho.
Primeiro voltava à Aldeia SOS de Bicesse para visitar os meus irmãos mais novos, que ainda lá moravam. Depois continuei a ir, para visitar a mãe adoptiva que lá continuava, com novo grupo de crianças. Após a reforma da mãe, continuei a ir à Aldeia porque tinha lá uma afilhada SOS, a seguir a essa afilhada houve outra …e foi assim que de razão em razão nunca deixei de “aparecer”.
Um dia fui convidada, junto com outro ex-residente, pelo Presidente da Associação da altura, Dr. Manuel Matias a fazer parte dos sócios-efectivos.
Após aprovação do Concelho Directivo, deixei de ser somente sócia - passei a integrar o grupo dos sócios com direito a voto nas Assembleias Gerais.
Sinto o peso desta responsabilidade, como um dever que exerço sempre com todo o amor que tenho por aquela que foi a minha casa, mas que será sempre a minha família de coração.
Tenho tido um papel mais activo nos últimos anos, fui membro da Mesa de Assembleia Geral durante três anos, membro da última Comissão Eleitoral, membro suplente do actual Concelho Directivo e integro os Grupos de Trabalho que dão apoio ao actual CD.

O que me move? Amor e Gratidão.
O que desejo? Que as Aldeias SOS possam continuar a ser o Lar de muitas mais crianças.

Que muitos e muitos meninos possam vir a dizer “que foram Felizes naquele grande quintal”.

O meu grande Obrigada a todos os que contribuem para que a grande Família SOS continue a crescer.



 Benvinda Neves
Maio de 2014