quarta-feira, 24 de abril de 2024

Tantas vezes o sonho nos salva da loucura...



Há alturas na vida, em que precisamos 

transpor a linha da razão, para não enlouquecermos.

"Mana, liga aí para o meu filho".

"Liga tu mano, tens o comando por voz, podes fazer a ligação. 

Bem sabes que ele nunca atende, mas tenta".

"Estou filho - é para te dizer que tenho muitas saudades tuas,

que não compreendo porque não me visitas 

e que as saudades são muitas.

Hummm...sim...sim... estás a trabalhar. 

Como estão as meninas? Tens guarda partilhada?

Ok, é só curiosidade, bem sei que isso é pessoal

e não tens que me dizer.

Sim... sim...filho, está bem, vai lá trabalhar"...

Talvez uns dez minutos depois:

"Zé, falaste, falaste, mas nunca ouvi a voz do teu filho"

"Pois não, porque tenho auricular".

"Mano, o auricular está aqui na gaveta".

"Não importa se ouviste ou não a voz do meu filho,

importa que eu quis ouvi-la e ouvi".

Esta frase deixou rolar uma lágrima dos olhos estáticos

que desta vez estavam bem abertos, embora sem ver.

"Tens razão mano. Não importa nada se ouço ou não,

o importante é que tu o ouças se o desejas.

Triste a incapacidade física que roubou a mobilidade e a visão

e mantem a pessoa prisioneira ano após ano.

A solidão e a saudade juntam-se à tristeza

e é preciso de vez em quando 

"mascarar a realidade", para não morrer de dor. 

Tantas vezes o sonho nos salva da loucura...


Benvinda Neves

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