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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Dias de Festa na nossa Aldeia SOS…


Da revista das Aldeias de Crianças SOS

Da revista das Aldeias de Crianças SOS



Tive o prazer de ser convidada para "dar voz"
na revista das 
Aldeias de Crianças SOS.

Como Filha da Associação, 
partilho com carinho algumas recordações de Infância.

Convido os amigos a  ler e a conhecerem
as Aldeias de Crianças SOS de Portugal:

 https://www.aldeias-sos.org/getmedia/eaeec6f9-8ffe-4b1a-ae3d-a1248eec4358/revista-1-2016-web.pdf



Dias de Festa na nossa Aldeia SOS…

Na nossa infância SOS, havia dias que eram para comemorar ”em grande”.
Fazia-se festa no dia do nosso aniversário, no dia do aniversário da Associação, nos Santos Populares e em todas as datas comemorativas da Igreja, dado que a nossa educação foi católica.
As melhores roupas e sapatos eram guardados para usarmos aos domingos, altura em que íamos à missa e nos deveríamos apresentar mais cuidados, por sermos “convidados para a casa do Senhor”.
Roupas novas – eram uma raridade e se houvesse seria guardada para o Natal ou para a Páscoa. Um “pesadelo terrível”, pois quando chegava a altura festiva, muitas vezes já não nos servia. Nunca esqueci o desgosto que tive quando fui finalmente para vestir o meu primeiro vestido novo – cor de laranja com flores minúsculas verdes, gola redonda e saia franzida, enviado por uma tia da Venezuela. Tinha crescido um palmo, naqueles três ou quatro meses que o vestido esperou pela Páscoa – foram lágrimas de desgosto por uma mentalidade que nunca entendi, mas que era muito comum na época.
Os nossos aniversários eram comemorados em família. A mãe enchia a mesa de petiscos e convidávamos um ou outro amigo mais chegado, de entre os primos SOS, para vir à festa a nossa casa. Era uma verdadeira alegria, recebíamos duas ou três pequenas lembranças, como livros para colorir, lápis de cera ou lápis de cor – e sentíamos-mos felizes porque nesse dia eramos o centro do mundo.
Só descobri que existiam dias de aniversário, quando fiz os meus sete anos – e já residia na Aldeia SOS DE Bicesse.
O aniversário da Associação era um dia cheio de “pompa e circunstancia”. A Aldeia enchia-se de convidados ilustres que vinham visitar as casas e se inteiravam sobre o funcionamento da instituição. Faziam-nos imensas perguntas e liam connosco os nossos jornais de parede.
Tentavam-se nestas alturas angariar benfeitores, sócios e padrinhos – essenciais para a sobrevivência da Obra.
Hoje os aniversários da Associação são muito mais informais e bem mais calorosos.
É uma altura que reúne várias gerações no mesmo espaço físico e se canta os parabéns à nossa casa-mãe. Muitos ex-utentes convivem neste dia - há abraços, beijos, o saber “com estás” e muitas e muitas gargalhadas com recordações de infância vivida em conjunto.
É um encontro a que nunca falto.
Os Santos Populares era uma altura que todos gostávamos. A Aldeia abria as portas à comunidade. A troco de dinheiro que revertia para a Associação, havia rifas, febras, sardinhas, fogueiras, alcachofras e muita musica noite dentro.
Um ou dois meses antes, fazíamos serões em conjunto. Armados de papel colorido, tesouras, cola e fios, construíamos muitos metros de bandeirinhas, flores e festões com que enfeitávamos o recinto onde se realizava a festa.
Adorava aqueles serões a que juntávamos anedotas risos e cantos.
Os dias que antecediam as festas religiosas eram também de atividades coletivas.
Antes do Natal reuníamo-nos na biblioteca, onde fazíamos todos os cartões de Boas Festas que eram enviados para os padrinhos e para os benfeitores SOS.
Através de vários ensaios preparávamos teatro ou cânticos que apresentávamos depois no dia de Natal, numa festa para todos, na casa comunitária.
No Carnaval mascarávamo-nos, havia desfile e concurso de máscaras, que culminava em palhaçadas, partidas e bailarico.
Na Páscoa, como o tempo já era Primaveril, as atividades ao ar livre eram muitas.
Poucos dias antes pintávamos ovos cozidos, que eram escondidos no jardim do pátio.
O primeiro prémio era uma tablete de chocolate (quase sempre fora de prazo), para o ovo mais bonito. O segundo prémio era outra tablete de chocolate, para quem descobrisse mais ovos em menos tempo. E nós eramos renhidos competidores.
Toda a Aldeia se envolvia em atividades de perícia e mestria. Eram preparadas corridas dentro de sacos de serapilheira, gincana em bicicletas, corridas ao pé-coxinho, corrida com uma bola segura por duas testas, tirar bolas com a boca de dentro de alguidares de água, etc…etc.
Tudo servia para individualmente ou em equipa competir e divertirmo-nos.
Não deixa de ser curioso, lembrar-me das cerimónias da semana Santa da missa de Páscoa, de todas as atividades lúdicas e não me lembrar se havia alguma comida típica do dia.
Talvez porque o mais importante da vida são mesmo os laços humanos e os valores que nos são transmitidos.
Foi de certeza o conjunto de todas as vivências que nos aproximou uns dos outros e nos faz sentir que somos Família SOS.
Há e haverá sempre razões para comemorar a Vida.
Continuo a gostar de descobrir que há sempre motivos para Festejar.

Benvinda Neves

Com o João no colo.