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sexta-feira, 11 de julho de 2014

A minha estranha Loucura…

(Cabo Girão - Ilha da Madeira)


 A minha estranha Loucura…

Não sou nada valente – sou exactamente o que se chama “menina medricas”.

Era assim que injuriosamente na primária chamávamos os menos afoitos. Todos os rapazes receavam este “mimo”- nem as meninas queriam ser assim tratadas.

Na nossa sociedade sempre venceu a lei do mais forte – e essa é a razão por que aprendemos a esconder desde cedo as nossas fragilidades.

Não sou adepta de desportos radicais, o mais radical que consegui fazer até 2004 foi andar na montanha-russa do Tivoli em Copenhaga – considerada na época a maior da Europa. Não sei bem como me conseguiram convencer, mas a experiência foi de tal ordem “emocionante”, que quando eu e a minha irmã Paula respirávamos finalmente por “aquela coisa” ir parar, tivemos uma volta extra anunciada no microfone de agradecimento por os nossos gritos terem atraído tantos espectadores. 
Não gostei nada da experiência, o estômago vinha colado ao cérebro e os joelhos tremiam tanto que mal me aguentava de pé.

Em 2005 andei de “Buguie” pelas dunas do Nordeste Brasileiro – muito emocionante segundo relato de todos os elementos que enchiam o carro. Uma vez mais só queria ver a hora daquilo acabar.
 Achei sempre que ia virar na próxima parede de areia e que nos espatifávamos todos.

Mais radical que isso, só mesmo em 2007, quando fui buscar o meu primeiro carro “novinho” ao stand (o anterior era em 2ª mão) e quis travar a fundo, tendo levantado voo (sem exagero) sobre a estrada e aterrado junto à ribeira que passava numa cota mais abaixo. Realmente sabia que ia buscar um carro adaptado – mas não me tinha passado pela cabeça que os pedais viriam trocados. Talvez tenha sido ignorância minha, mas na altura achei que o médico deveria ter tido em consideração que eu nunca tinha sido deficiente física, logo deveria ter sido devidamente elucidada sobre o assunto.
Ainda hoje tenho bem presentes os gritos de pavor do pobre do vendedor sentado no banco do pendura. Na aterragem os nervos fizeram-me ter um enorme ataque de riso – enquanto ele me olhava incrédulo e gritava:

“É louca meu Deus…ela é louca…”

E devo ser…pelas incongruências com que analiso a minha vida.

Tinha pavor de alturas. Quando me mudei para este 4º andar não conseguia espreitar na varanda nem nas janelas sem que o estômago ficasse revolto e a cabeça tonta. Agora consigo caminhar sobre o chão de vidro do Cabo Girão, 580m acima do nível do mar, sem sentir tontura alguma.

Tinha medo de morrer afogada, mas saímos de Cascais em dia de temporal num barquinho de fibra, de 5m com vagas que passavam sobre ele, para ir pescar ao Cabo da Roca, tendo sido intersectados pela polícia marítima por termos passado (sem saber) a barra que estava fechada –  éramos o único barco que tinha saído nessa manhã.

Tinha medo de túneis e de tudo o que me tapasse a cabeça, nem que fosse um lençol – sempre achei que morreria com falta de ar. Mas fiz mergulho nos corais, com botija de oxigénio, agarrada a um miúdo que não conhecia, sem que antes tivesse experimentado mergulhar.

Podia continuar a analisar…teria centenas de peripécias de uma vida de aventura, desde férias à boleia por esgotarmos o ultimo tostão a mais de 90Km de casa, descida de rio em caiaque, campismo selvagem nas margens dos rios ou nas arribas junto ao mar, descidas e escaladas de precipícios como o Guincho Velho ou a Roca, para um dia ou uma noite de pesca, etc. – de tudo um pouco na idade certa. Tenho uma vida “cheia”.

Confesso que continuo “menina medricas”, que tem medo de dormir sozinha em casa, que foge de zonas escuras e isoladas, que tem medo de uma galinha, ou de qualquer bicho que não pareça cão ou gato e foge de todos os insectos.
Sou “menina” em todos os aspectos, pois não resisto a uma gargalhada, mas desfaço-me com uma lágrima.

Embora muitos me julguem forte, não passo de uma “piegas” como diz quem me conhece bem.

A minha estranha loucura
É não resistir ao que me desafia.


(Passeio de Buguies nas dunas no Nordeste do Brasil)


Benvinda Neves
Julho 2014