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terça-feira, 17 de junho de 2014

Quando for Velha…



Quando for Velha…

“Um dia ainda hás-de ser a minha querida, sempre gostei de ti. Gosto de ti porque estás sempre a sorrir, sempre te conheci assim” – diz enquanto me afaga o braço, com o seu grande sorriso e os olhos brilhantes, como se rissem também.

Está feliz porque continuo a parar o carro para lhe dar os bons dias e lhe fazer umas festinhas no rosto encarquilhado dos seus 80 e muitos anos de vida.

Corada de constrangimento a filha, que o segura por um braço, pede desculpa “não ligue, isto é da idade – olhe que ele é muito malandro”.

Mas o embaraço da filha não lhe quebra a linha de pensamento, “ um dia destes, quando o tempo melhorar, havemos de ir à caça. Vamos os dois de mãos dadas, por esses campos fora”.
Digo-lhe que sim, que vamos esperar pelos dias bonitos e que havemos SIM de ir os dois passear pelos campos.

Mais um bocadinho de conversa e despeço-me pois tenho que ir trabalhar. Ele fica feliz a dizer-me adeus e eu parto com o sorriso com que me contagia sempre que o encontro.

A velhice é como ter pássaros presos por vontade própria, na gaiola do nosso peito. Abrimos-lhe a porta, mas eles não querem voar. Ficam e encantam-nos com o seu cantar.
Enchem a alma de sonhos e constroem histórias que misturam de memórias e desejos.

Os velhos, tal como as crianças, não aprisionam os sentimentos, cantam-nos na musicalidade das suas palavras simples e deixam que transborde o que lhes enche o coração.

Quando for velha quero ter a minha gaiola repleta de pássaros livres que fiquem porque desejam e não porque lhes feche a porta.
Quero ouvi-los cantar todo o dia e dizer a toda a gente como gosto de sorrisos, como sempre gostei.
Quero que eles me contem histórias cheias de sonhos e memórias.

No final do percurso, quando estiver pertinho do fim, quero ouvir alguém dizer-me  “sim, quando o tempo estiver melhor, havemos de percorrer os campos de mãos dadas” – e sorrir.

Benvinda Neves

Junho 2014