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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

“Sapatos” são uma das minhas perdições…

(foto de 1991 - as "botas" vermelhas)


“Sapatos” são uma das minhas perdições…

Hoje quebrei a regra do bom senso e não cumpri um conselho médico,
tão pouco a lógica que deve ser usada por pessoas com problemas graves de postura.
Aqui estou em cima de uns saltinhos, que embora não sendo muito altos, já se assemelham "muito" com calçado de mulher.
Comprei umas botas (sempre adorei botas) e sinto-me uma "senhora"- um bocadinho exagerada esta afirmação, mas quem se lembra dos meus velhos tempos sabe o que quero dizer.
Durante muitos anos, acreditei que o tipo de calçado que se escolhe, está bastante associada à personalidade da pessoa.
Continuo a pensar que tem lógica esta minha associação - o calçado diz muito mais sobre um individuo que a restante indumentária.
Não estou sempre a reparar em "pés" - mas eles são conclusivos.
Há-os de todo o tipo "cuidados", "descuidados", "elegantes", "bimbos", "desportivos", "clássicos", "extravagantes", "tímidos", "vaidosos," “cansados", "doentes", etc....O que é certo é que “pés” têm personalidade.
Mas como diz o ditado para tudo na vida, existem excepções. E também no caso do calçado, tenho que admitir que em alguns casos, ou pelo menos em algumas alturas das nossas vidas somos obrigados a fazer opções que não correspondem ao nosso gosto pessoal.
Tem sido o meu caso nos últimos anos, pois os problemas graves resultantes do meu acidente, obrigaram-me a reformular todo o calçado e a ficar condicionada a sapato de senhora "tipo masculino". Muito mais confortáveis, diga-se, mas que influenciam em muito aquilo que vou vestir.
Gosto de usar de vez em quando vestidos justos, curtos e de renda - imaginem se os vestiria com sapato raso, largo e de atacador - pareceria que tinha esquecido o resto do fato de mergulho e que trazia só as barbatanas. 
Em algumas ocasiões que vêm à conversa recordações de tempos idos, surgem várias vezes comentários de colegas como:
“E aquele teu andar bamboleante em cima de saltos de dois palmos, finíssimos?” Ou “quando te conheci tinhas um andar que todos olhávamos” Ou ainda “ não eras nada como és hoje, parecias uma “vaidosona”, sempre muito bem calçada”.
Poderiam parecer-me depreciativos estes comentários, mas não. Só provam que o que calçamos é uma marca da nossa personalidade e que os outros mesmo inconscientemente formam opinião sobre a nossa pessoa através dos nossos pés.
Quase todas as meninas brincaram com os sapatos das mães ou das irmãs mais velhas – não fui excepção, a minha “paixão” por sapatos acordou cedo.
Desejava crescer para poder usar sapato alto, fino e de pele – era fascinada pelos sapatos de pele de cobra que tanto se usaram na minha juventude. Claro que os tive, em preto, em cinzento e em castanho, com ou sem aplicações – todos lindíssimos e elegantes.
O sapato de salto alto que representou uma proibição até à minha idade adulta - tornou-se um símbolo de conquista e glória quando fiz os 18 anos e comecei a receber remuneração pelo meu trabalho.
Não sou de muitas extravagâncias, mas confesso que “sapatos” são uma das minhas perdições (com excepção destes últimos anos), desde que sou independente – sempre tive muito mais que os que preciso. Sapatos, botas e malas a condizer.
Alguns são recordados quase como ícones de uma época, como as botas até aos joelhos, em camurça vermelha – uma altura em que me sentia renascida e feliz. Ou aqueles sapatos de verniz preto com salto de estilete, que calçava nos dias em que me sentia tão “segura” que acreditava que tinha poder para mudar o mundo.
Demorei dois anos para me mentalizar que os ia dar (“quase” todos), porque não os poderia usar mais – 13 pares de uma só vez, alguns tinha calçado duas ou três vezes. Os últimos só foram dados o ano passado - sete anos sem uso.
Sou de alimentar sonhos e acalentei que aqueles talvez conseguissem ser usados muito esporadicamente, em ocasiões de festa.
Esta é uma nova fase – saltinho “médio”.
Pode parecer sem importância mas faz toda a diferença, na minha aparência e vaidade pessoal – um conforto grande para o meu ego. Sim, porque uma coisa é a gente não usar porque não quer, muito diferente é sabermos que não usamos porque não podemos.
Lentamente retorna o meu dia-a-dia e festejo “para mim mesma” cada pequena superação – despercebidas para quem me rodeia.
É difícil explicar o que se sente quando voltamos a conseguir fazer coisas tão simples do dia-a-dia, como calçarmo-nos, vestirmo-nos ou lavarmo-nos sozinhos.  
Voltar a usar um bocadinho mais de salto é só um capricho, comparado com tudo o que ficou para trás.
Mas um capricho que me deixa muito feliz.

(confidencio que começou a crescer a nova colecção de sapatos com saltinho médio….é que apesar do interregno, não morreu o meu fetiche).

Benvinda Neves
Fevereiro 2014