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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Desabafo…




Desabafo…( hoje, sinto-me frágil…)

“Há mais de vinte anos que sou terapeuta, já me passaram pelas mãos centenas de costas, mas nunca nenhumas tão más quanto as suas. Nem sei como se aguenta de pé. Com umas costas como estas só pode ter dores terríveis”.
Isto foi-me dito hoje, mas tal como referiu o mano Chico, foi só “uma vez mais” que ouvi esta frase.
 É assim sempre que mudo de centro de fisioterapia ou vou a uma nova clinica fazer exames à coluna.
Há cerca de três anos disse-me o radiologista que não me vestisse, pois tinha que repetir o exame, após a repetição pediu que voltasse no dia seguinte, pois havia um problema com a máquina. No outro dia pediu-me que andasse à sua frente de um lado para o outro do consultório e disse-me que era inacreditável ver-me assim a andar, sabendo que aqueles exames eram meus. Afinal não havia nenhum problema com a máquina, eu é que tinha que ir urgentemente ao meu cirurgião, porque a minha coluna estava a partir por uma outra vertebra, que não uma das quatro já intervencionadas.
 Fiquei em completo desespero e os dois dias de espera para a consulta foram de rios de lágrimas e falta de sono. Fui avisada quando da minha segunda cirurgia que uma pancada por trás no carro, ou uma queda podem significar perder o andar.
Esses dois dias foram de pesadelo – sobretudo porque o registo dos vinte meses que estive de cama sem conseguir andar, estão bem presentes e vivos na minha memória. Foram quase dois anos em que as únicas viagens que fiz foram de ambulância, deitada numa maca para ir ao hospital fazer fisioterapia.
 Minto – saía também uma vez por mês (de ambulância na maca, é claro) para visitar os “super-heróis” que faziam parte da junta médica que me obrigou durante todos esses meses a comparecer na sua presença, porque apesar dos relatórios e dos exames médicos não compreendiam porque não estava eu a trabalhar. Pena que a sua competência não fosse tão grande para a leitura dos RX, pois poderiam ter descoberto que havia uma peça metálica solta nas minhas costas – teriam evitado metade do meu sofrimento em vez de mo terem aumentado.
Regressando há três anos atrás, as minhas lágrimas e desespero tiveram como resposta uma gargalhada do meu cirurgião, que ao diagnóstico do radiologista me respondeu “e tu estás a chorar por isso? Oh rapariga, não podes ligar ao que te dizem, ele disse-te isso porque não viu como tinhas as costas antes”. Claro que me arrancou também uma gargalhada. Ele foi o meu “salvador”, o único que devolveu qualidade à minha vida – para mim a voz dele é lei. Confio cegamente no que me diz.
Tive o azar de ter demorado tantos meses para o descobrir, pois foi o sétimo especialista particular que procurei, todos a preço de ouro, depois de estadia em Hospital da especialidade, como é o Ortopédico José de Almeida e de acompanhamento diário no centro de fisioterapia de Alcoitão – ninguém viu a peça solta, a não ser ele.
Além do sofrimento causado por uma intervenção desastrosa que me foi feita de urgência no Egipto, após acidente de viação em férias, acresceram todos estes meses de queixas incompreendidas que me arrasaram a nível físico e psicológico.
Acho que me tornei uma especialista na “DOR”. Podia escrever umas páginas sobre esta palavra, que é praticamente uma companheira diária sem que os outros se apercebam disso a maior parte das vezes. Seria um enjoo se me estivesse sempre a queixar.
Como respondi hoje à terapeuta “a dor aprende-se a tolerar e a suportar cada vez mais”.
Não me refiro à dor dilacerante de uma doença terminal, ou de um pós-operatório sem medicação, como foi feito comigo lá no Egipto. Essa é uma dor que nos enlouquece e nos faz desejar morrer porque não a conseguimos controlar através do cérebro. Não temos forma de a aceitar ou suportar.
Refiro-me às dores “chatas” diárias, provocadas por processos de degeneração ou acidentes.
 Pode parecer estranho, mas já pensei nisto algumas dezenas de vezes e tenho a certeza que a minha resistência e tolerância à dor aumentou com o passar do tempo.
 Acredito que isto acontece com a maior parte das pessoas que têm dor cronica.
O nosso cérebro é fantástico porque é um grande aliado a lembrar-nos que ela já cá estava ontem e antes e antes…e às tantas temos consciência que se não podemos viver sem ela, então vivemos com ela e vamos aumentando a nossa capacidade de a tolerar – é isso ou desistir.
Não quero com isto dizer que a gente esqueça que a tem – de modo algum, aprendemos é a fazer as coisas de forma que nos incomode menos mas sobretudo a não deixar de fazer, porque pelo menos para mim, seria sinonimo de não viver.
Sou por vezes levada “ao tudo ou ao nada” (faz parte da minha natureza) e apologista da velha máxima que “perdoamos o mal que nos faz pelo bem que nos sabe”, por isso se tiver vontade numa festa de dançar até cansar, mesmo que saiba que no dia seguinte mal me mexo – não deixo de fazer.
Este é o meu lema para tudo o resto na minha vida e são muito poucas as coisas que deixei de conseguir fazer – outras há que posso não conseguir num dia, mas outros haverá para tentar.
Embora a minha vida esteja condicionada ao meu novo “estado físico”, não deixa de me encher de orgulho a quantidade de vezes que me perguntam “mas porque dizes que és coxa e marreca?” ou quando a ignorância de alguns os leva a dizer “ainda bem que ficaste boa, olha se tivesses ficado aleijada”. É a prova de que o meu empenho é visível.
Também sei dizer “hoje não consigo” – é importante que reconheça as minhas limitações. É isso que sucede quando recorro à fisioterapia – a consciência do meu limite e de que preciso de ajuda.
Quando acontecem mudanças bruscas e inesperadas na nossa vida é preciso sermos psicologicamente fortes e suficientemente inteligentes para a nova realidade.
O primeiro passo é a consciencialização, a análise da situação. 
Depois a aceitação seguida da adaptação.
Já passei por todos estes passos –  os amigos mais íntimos sabem que os superei a todos. Ou melhor, que os supero diariamente. Não digo que com nota máxima, pois vejo quem supere dificuldades  maiores com resultados mais brilhantes.
Mas sinto que tenho tido  resultados crescentes.
Por vezes o empenho exige-nos tanto, que nos esgota emocionalmente.
Tem dias como o de hoje em que acordo a sentir-me “frágil” – deve ser humanamente aceitável…
É a minha fragilidade que me leva a este desabafo.
Mas há alturas em que uma “marreca” não consegue carregar tanto peso…
Desculpem, hoje tive que o dividir com vocês.

Benvinda Neves
31 Janeiro 2014