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domingo, 22 de dezembro de 2013

Natal é dar…



Natal é dar…


Não gosto de pessoas “amargas”. São pessimistas e tão insatisfeitas que reclamam do bom e do mau. Lidar durante muitos momentos com essas pessoas, faz-nos mal, deixa-nos desconfortáveis e transmite-nos uma carga negativa, que nos contagia de tristeza. 
Por norma, não fazem parte do meu núcleo de amigos, pois não me sinto atraída por esse tipo de personalidade. 
Mas infelizmente às vezes involuntariamente cruzamo-nos com pessoas assim – confesso que me deixam uma sensação de mal-estar. Apetece dizer aquela velha frase “gente que reclama de barriga cheia”.

Entristece-me ouvir tanta gente dizer que o Natal é hipocrisia e que é a data que menos gostam. Que me perdoem a franqueza, mas pelo que me tem sido dado analisar, são por norma pessoas egoístas que vivem para o seu pequeno mundo e no dia-a-dia se esquecem que há um universo inteiro onde estamos inseridos e em que é nossa obrigação participar. Reclamam porque o mundo não lhes dá mais, mas nunca se interrogam qual o contributo que dão.

Adoro a época de Natal – pelo significado especial que tem a palavra “dar” nesta que é uma festa de Família e Amor.

 “Dar “ tem um significado tão grande, que poderia ser considerado o maior dos sentimentos, pois quem dá, recebe todos os outros sentimentos em troca.

Esta é uma altura em que por brincadeira costumo dizer que gostava de ser muito rica – teria de certeza uma lista com muitas páginas de nomes a quem quereria oferecer presentes.

 “Dar” sempre foi para mim um enorme prazer.
Penso que este “prazer”, pode ou não nascer connosco. 
Mas como em tudo o resto, é também uma forma de sentir e pensar que se adquire com a educação. 
Torna-se depois parte da nossa personalidade e acompanha-nos o resto da nossa vida.

Só os mais chegados sabem, mas já fui muito pobre e quando digo muito é sem exagero.
Muitas foram as vezes que vi a minha mãe chorar por não ter nada para dar de comer aos filhos.
Muitas e muitas foram as vezes que nos deitámos sem ter tido uma única refeição ao longo de todo o dia.
Muitas foram também as vezes que a única comida em casa foi trazida por mim, que com cinco de idade, começava de manhã a bater de porta em porta a perguntar quem precisava que fosse à mercearia. Levava a lista e o dinheiro que me confiavam, fazia os "avios" que entregava com o troco. Como paga do meu trabalho recebia um pacote de leite, um pão ou um iogurte, que orgulhosamente corria a entregar em casa. Nos dias melhores conseguia uma couve, com que a minha mãe fazia uma panela de caldo que comíamos com pão.

Mas mesmo tão pobres, esse caldo ou um naco de pão, foi algumas vezes dividido com um sem-abrigo que nos batia à porta de vez em quando.
Lembro-me de um dia ter questionado a minha mãe, por darmos quando nunca tínhamos e ela ter-me feito ver que se dávamos era porque tínhamos e que é sempre obrigação dar a quem ainda tem menos que nós. “Filha, quando se tem, divide-se, porque é sempre Jesus que nos bate à porta”. Era verdade que só dividíamos quando tínhamos, pois houve dias que o pobre homem nos bateu à porta e não tínhamos nem para nós nem para ele – cheguei a vê-lo chorar ao mesmo tempo que a minha mãe.

Depois da morte da minha mãe, quando fomos para a Aldeia SOS, deixámos de ser tão pobres. Havia comida a todas as refeições na mesa e tínhamos roupas e sapatos. Mas a surpresa maior foi receber presentes no Natal.

Na Aldeia não queriam que fossemos educados a pensar que agora que tínhamos tudo já não precisávamos pensar nos outros.

Sempre nos vestimos com roupas e calçado usado que nos ofereciam.
Eram assíduas as nossas visitas ao longo do ano às barracas do “Bairro do Fim do Mundo”, que ficava perto da Aldeia.
Levávamos roupas das que nos eram oferecidas e os adultos faziam-nos ver que havia meninos com menos sorte que nós, que tínhamos uma boa casa.

Na altura do Natal retirávamos dos nossos presentes um dos brinquedos que levávamos aos “meninos das barracas”.
Lembro-me que no meu primeiro Natal com presentes, não achei nada justo ter que ir oferecer precisamente o brinquedo que eu mais gostei – uma boneca, quando nunca tinha tido nenhuma.

Mas eu era honestíssima e tinham-me dito que só tinha valor a minha oferta se fosse um presente que eu achasse importante e aquele era o único de que gostava mesmo.
Nessa noite quando a casa já estava toda às escuras, com a cabeça tapada, chorei por a boneca não ter ficado para mim.

A mãe SOS da altura deu por isso e conseguiu que no fim de conversarmos eu sentisse um orgulho enorme no meu gesto – acreditei mesmo que Deus sabia e estava contente comigo e que esse era o verdadeiro espírito de Natal.

Ao longo da vida não perdi este valor precioso que me foi transmitido. Nunca até ao presente recebi um salário, que não tenha partilhada parte em prol de alguém que mais precise. 
Acredito que a vida só faz sentido quando sabemos partilhar.
O dinheiro só tem importância se com ele conseguirmos obter felicidade – não seria capaz de me sentir feliz se vivesse indiferente aos que me rodeiam.

“Dar” não é coisa que se deva fazer uma vez por ano, pois tal como se ouve dizer muitas vezes, o “Natal deve ser todos os dias”.

Da mesma forma que celebramos uma vez por ano o nosso aniversário, embora façamos “tempo de vida,” todos os dias, assim também devemos festejar o dia em que por excelência celebramos o Amor aos outros.

Não duvido que esse dia só pode ser o dia de Natal, o dia da Natividade, o dia da família.

Podem ser insignificantes as nossas lembranças, mas quando entregues nas mãos de alguém, essa pessoa tem a certeza que nos lembrámos dela.
É maravilhoso o sorriso de uma criança que recebeu um brinquedo, por muito simples que seja.

Na véspera de Natal costumo ficar o dia inteiro na cozinha, a fazer arroz-doce, mousse de chocolate e queijadinhas, que distribuo depois porta a porta por conhecidos que sei têm menos que eu.

Podem parecer presentes de menor valor, mas há anos e anos que volto para casa com o coração feliz pelos sorrisos que recebo em troca.

Só quem nada quer partilhar é que não sente e não sabe o que é o Natal.

Tempo de “dar” é todos os dias, mas o dia em que celebramos a importância que tem para nós esse misto de sentimentos é o dia de Natal.

Adoro este dia e todo o Amor que lhe está associado.

Como dizia a minha boa mãe, “não há nada que a gente tenha que não possa ser partilhado, pois há sempre quem tenha menos que nós”.

Feliz Natal a todos.




Benvinda Neves
Dezembro 2013