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terça-feira, 12 de novembro de 2013

“Vaidosa”…



“Vaidosa”…

A minha mana Paula, com quem tenho uma relação de verdadeira e grande amizade, de vez em quando abre o seu grande sorriso e atira-me um “vaidosa”, para logo a seguir dizer com voz doce-de-mimo “mas eu gosto”.

Dou comigo a pensar se será um defeito ou uma qualidade, pois considero que vaidade não tem que ser sinonimo de futilidade. Como em quase tudo na vida, penso que é boa quando “consumida com conta peso e medida”. Gosto das pessoas com um bocadinho de vaidade.

Detestaria ser considerada uma pessoa vazia, cujo capricho exclusivo é a satisfação de se exibir embrulhada em sedas e brocados, como boneca de porcelana. Não suporto conversas de horas sobre trapinhos e não sei, nem quero saber, nomes de marcas, modas, lojas chiques ou costureiros.

Mas confesso que cultivo alguma vaidade. Gosto de ter boa aparência e como a maioria das mulheres aprecio roupas novas. Preocupo-me com o traje adequado a cada circunstância, pois detestaria destoar e permito-me de vez em quando a excentricidade de cometer “uma certa loucura”- isto nos dias em que preciso de alimentar o ego.

Na maior parte dos dias, sou uma pessoa discreta, que prefere passar despercebida. Sinto-me inibida quando observada por desconhecidos, sobretudo quando tenho de entrar num lugar que tenha muita gente – por vezes até os evito. Desenvolvi involuntariamente uma espécie de defesa, que me leva a olhar sem ver. Por esta razão já me têm sido atribuídos adjectivos que não correspondem à minha personalidade. Várias foram as vezes que após alguma convivência me foi dito “não pareces nada ser como és, pensei que fosses distante e altiva” – algumas das vezes este “altiva” foi substituído por “vaidosa”.

Faço figura triste, quando a persistência dos olhares de estranhos me incomodam, como não acertar na boca e despejar o café pela blusa abaixo ou partir o prato de porcelana do conjunto herdado da tetra-avó num jantar chique em casa de amigos dos amigos.

Aquele que é o meu comportamento no meio de amigos, não é de forma alguma o que pareço ser no meio de estranhos – tenha isto a explicação que tiver.

Tenho lutado desde sempre com esta espécie de “receio” que o mundo repare que ali estou. Cheguei a ter professores que no fim do ano me perguntaram “mas você é minha aluna?” – só o nome invulgar, os fazia lembrar “ah…pois é”.

Penso algumas vezes no peso que uma educação demasiado severa tem sobre nós a vida inteira. Nunca consegui apartar-me, na totalidade, de demasiados preconceitos que me foram persistentemente incutidos e se colaram a mim, moldando a minha personalidade. Uma verdadeira senhora é sempre discreta e não se acha bonita, porque só as “malucas” têm vaidade. Lembro a humilhação que passei no dia em que coloquei um risco preto nos olhos.

Não censuro ninguém, pois os tempos eram assim e cada um transmite aquilo que considera ser os seus valores morais. Não demora a termos consciência que somos diferentes daquilo que nos foi catequizado durante toda a infância – e travam-se lutas internas de culpabilização.

Mas tal como se diz e muito bem, a vida é uma longa aprendizagem e com o tempo vamos ganhando “estofo” e deixa de nos importar a opinião dos outros. Fala mais alto o nosso eu, que todos os “pesos” que nos prenderam. O bom da idade é a experiência e esta dá-nos sabedoria suficiente para sabermos que a única pessoa com quem contamos sempre a cem por cento, é a nossa própria pessoa.

Sempre me deu prazer quebrar algumas “regras” e variar de vez em quando. Digo que sabe muito bem sair uma vez por outra dos padrões normais e vestir um arrojado vermelho, um sexy cabedal preto ou uma sensual transparência – é como pular uma cerca apertadinha, construída em meu redor.

A mana diz que sou vaidosa…e sou por vezes, mas sempre perdoada no seu lindo sorriso, afinal decerto não sou demais, pois ela diz que até “gosta de mim assim”.

Benvinda Neves

Novembro 2013