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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dois amigos muito especiais…

(foto de 16 de Agosto 2013 - Lagos)


Dois amigos muito especiais…


Doí-me o corpo todo, estou agoniada, tenho o estômago enrolado, um aperto no peito e uma dor de cabeça horrível – resultado do meu sistema nervoso e do medo de perder um grande amigo.
A vida de vez em quando prega-nos partidas e põe-nos à prova, medindo as nossas forças e obrigando-nos também à tomada de consciência do que realmente é importante e do que marca a escala daquilo que são os valores pelos quais nos regemos.
Costumo viajar e partilhar férias com aqueles que são dois dos meus amigos mais chegados, o casal Isabel e Lito.
Estávamos ligados por laços de camaradagem, por partilharmos bons momentos de lazer, sobretudo porque temos em comum o prazer de viajar. Depois da descoberta de que temos gostos bastante semelhantes nas escolhas dos locais a visitar, começámos a fazê-lo em conjunto, podendo variar o grupo juntando outros amigos, sendo que nós somos os assíduos.
 Como diz com muito humor o amigo Lito, por vezes “cometemos erros de Casting”, pelo que somos quase sempre os mesmos cinco aventureiros.
Os nossos laços de camaradagem mudaram em 2005, na nossa viagem ao Egipto, quando em pleno deserto, sofremos o atribulado acidente provocado voluntariamente por um extremista-radical que lançou um autocarro desgovernado para cima do nosso.
A minha vida transformou-se muito, foram praticamente dois anos de cama, seguidos de muitos anos de aprendizagem, adaptação, muita insistência e vontade, para viver a nova realidade e aceitar todos os condicionantes que fazem parte do meu dia-a-dia.
É um orgulho às vezes ver e ouvir pessoas incrédulas que desmentem a minha incapacidade física acima dos sessenta por cento – significa que o meu empenho e esforço me têm conduzido onde pretendo.
Mas nenhum de nós é tão forte que consiga lutar contra todas as marés sozinho.
Tenho uma divida gigante de gratidão para com todos os meus amigos mais chegados, que me ergueram nas horas em que me deixei cair e que me abraçaram e beijaram todas as vezes que precisei (ou que precise) de chorar. 
São esses mesmos amigos que têm festejado comigo as vitórias.
Desse grupo restrito fazem parte a Isabel e o Lito, sendo que os nossos laços de amizade, ao longo dos anos se transformaram em Nós, que nos unem fortemente e nos fazem estar no coração uns dos outros, com um amor fraternal que jamais nos separará.
Há dois dias que o Lito foi internado, porque sofreu dois AVC- contínua em exames e observações. 
Não há palavras para descrevermos a impotência que sentimos quando sabemos que podemos perder alguém que amamos muito e temos consciência que tudo o que podemos fazer é pedir ajuda e esperar. É uma luta enorme contra o tempo que sabemos ser crucial no início de qualquer incidente que nos ocorra e um controlo muito grande para não disparatarmos nos nossos miseráveis serviços de saúde.
Infelizmente assiste-se a um retrocesso enorme nos serviços prestados aos utentes nos nossos hospitais públicos – e não estou com esta minha critica a culpabilizar os médicos ou os enfermeiros, pois reconheço que a culpa não é deles. Uma só médica para cerca de cinquenta doentes, num serviço de SO de urgência – devo dizer que é uma super-mulher.
Mas devo acrescentar ainda que somos governados por imbecis que não se dignam a visitar os serviços, para terem pelo menos noção de como funcionam - antes de porem em marcha leis que ceifam vidas.
Passámos grande parte da noite de domingo e ontem o dia inteiro no Hospital do Barlavento Algarvio e vimos a loucura que é aquele lugar – onde contámos uma média de chegada de 15 ambulâncias por hora. Ontem estava em cerca de 9h o tempo de espera dos utentes que saiam da triagem com pulseira amarela, que significa casos urgentes. Havia pessoas com fracturas expostas a esperar as mesmas 9h.
Assistimos a episódios degradantes que só podem ser descritos em países do terceiro mundo. 
É esta a nossa triste realidade.
Trouxemos o nosso querido amigo para um hospital particular em Lisboa, decisão acertada da Isabel, pois eu achei que deveríamos esperar pelo menos as 24h recomendadas, sobretudo porque ontem tínhamos temperaturas de 40 º – mas perante a loucura do lugar, foi sem dúvida a melhor decisão.
Na ambulância sentada ao lado dele, embora saiba que o incomodei um bocadinho, pois estava imenso calor, não consegui largar-lhe o braço todo o caminho, pois tinha que ter a certeza que sentiria nem que fosse o mais pequeno tremor.
 Não pude evitar uma lágrima e a lembrança da frase que me disse um dia quando no hospital, segurou o meu braço negro todo espicaçado:
“Quer queiras quer não, a partir deste momento as nossas vidas estão ligadas para sempre”.
Acredito com todo o meu coração que ele vai ficar bom. Foi só mais uma partida da vida para nos aproximar ainda mais e nos obrigar a tomar consciência que a amizade é o que nos segura de pé.
Com muito amor aos dois, hoje aqui relembro que os amigos são a família por nós escolhida.

Benvinda Neves

20 Agosto 2013