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quinta-feira, 25 de julho de 2013

A um Amigo…


(o Bambu – “forte e frágil”, como o meu amigo)


A um Amigo…

Comove-me a velhice e quando penso nisso, nem sei explicar bem porquê.
Talvez por ela conter muita inocência e fragilidade, tal como a infância.
Costumam dizer-me a brincar, os que melhor me conhecem, que atraio especificamente três tipos de pessoas: “as crianças, os velhos e os loucos”.
Há bastante de verdade nesta minha propensão, sem que haja qualquer esforço da minha parte para provocar os acontecimentos. Mas o certo é que há uma simpatia mutua, que se manifesta quase sempre em sorrisos.

Tenho um amigo simpático com uma idade acima dos oitenta, que me desperta sorrisos sempre que o encontro. 
Vejo-o amiudamente, nas minhas deslocações diárias para o emprego. 
Lá está ele de pé junto ao portão, dobrado sobre a sua bengala, "espiolhando" os poucos carros que por aquela ruela passam, enquanto espera a sua boleia para o centro de dia.
Os nossos encontros são frequentes e reduzem-se a alguns minutos. O ritual repete-se como se fizesse já parte de uma parceria estabelecida entre nós.
Ele avista o meu carro e o sorriso enche-lhe o rosto, posso jurar que também lhe ilumina os olhos, tenta erguer a mão livre a tremelicar, como quem tem o poder de me parar o carro.
Encosto sempre o mais perto possível, mas os poucos passos que nos separam são feitos num cambalear desajeitado, num cai-não-cai, que me faz repetir todas as vezes as mesmas frases:“devagarinho amigo, muito cuidado para não cair…não tenha pressa que eu espero…”.
Mas ele com a sua “sabedoria de velho” sabe que a vida é feita de correria e tenta rápido alcançar a janela aberta, pois sabe que são poucos os minutos que lhe reservo.
Também são sempre iguais as suas frases e ouvirei amanhã, o que ouvi hoje, ontem e em todos os nossos encontros ao longo destes últimos anos…
“Olha a minha grande amiga…estava aqui à tua espera, gosto sempre de te ver, és linda e sempre foste muito minha amiga. Não podemos demorar muito a conversar, para não chegarmos atrasados ao trabalho”.
Sempre estes mimos pela manhã, enquanto me segura as mãos.
A seguir vem o seu rosário de queixas, o joelho que lhe dói e o impede de andar, o não poder ir à caça como antes… e as lágrimas que correm tão espontâneas quanto o sorriso.
A princípio a filha receava que ele me incomodasse e vinha tentar arranca-lo à janela do carro – mas ao longo do tempo foi percebendo que o prazer é reciproco.
Outro dia contei-lhe que conheço o pai há muitos anos, que costumávamos conversar muitas vezes, quando ele passava à minha porta para ir caçar.
Também lhe disse que  ficámos amigos há trinta e tal anos, no dia em que ele com o seu grande sorriso, genuíno como sempre foi, me deu um abraço e me disse meio embargado:
“Gostava tanto que fosses minha filha – não que eu não goste da minha filha, mas gosto de ti como de uma filha”. Repetiu-mo outras vezes.
Foi das frases mais lindas que alguém me dirigiu até hoje.
Bem sei que o meu velho amigo hoje já não sabe de onde me conhece, nem se lembra de quantas conversas tivemos, mas isso não importa, pois com a sua simplicidade e inocência, continuará a fazer-me comover, todas as vezes que me diz “sempre gostei de ti”.
Dos nossos encontros casuais, durante estes trinta e tal anos, dou e trago sempre sorrisos.

Benvinda Neves