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domingo, 9 de dezembro de 2012

O Homem Velho…

























O Homem Velho…
Cruzei-me com ele, que se movia lentamente, pé ante pé agarrado à parede, amparado pelo torto e puído guarda-chuva que tremulamente segurava como uma bengala.
Estava com pressa, porque me aguardavam amigos para jantar, ainda pensei fingir não o ver, para não perder tempo e chegar atrasada. Não tive coragem, pois pressa, acho que tenho sempre, se não é por isto, é por aquilo, passo a vida a adiar horas, porque vivo a correr.
Aproximei-me sorrindo, disse-lhe um olá e estendi-lhe a mão, como outras tantas vezes que nos cruzamos,  ofereceu-me um grande sorriso no rosto tão enrugado e com os olhos brilhantes puxou-me para si e deu-me um beijo sonoro. Genuíno este beijo, deu-lhe prazer, vi-o na satisfação com que me disse “sei que somos amigos, mas já não sei de onde nos conhecemos. A menina mora aqui em Alvide?”
 Senti ternura por tanta sinceridade, regressou à fase da inocência, em que perguntar já não tem maldade. É este um dos estatutos da muita idade. “Então não se lembra que moro ali em baixo e que conversávamos algumas vezes quando passava para ir à caça?”.
“Ai menina a caça…” lágrimas correm pelo seu rosto e fiquei com vontade de morder a língua, como fico sempre que sou inoportuna no falar. “Choro eu e chora o meu cão sempre que os outros por ali passam para ir caçar – ele só lhe falta falar… para dizer que tal como eu gostava de ir. Mas já não consigo”. Tenta conter as lágrimas que limpa com as costas das velhas mãos.
Não sei que dizer e oiço-me desajeitada “então, então não fique assim triste, vê como ainda consegue vir aqui tomar café, conversar com os seus amigos e fazer tantas outras coisas de que gosta. Vá lá, temos que aceitar a vida como ela é”
“Pois é…pois é, mas tem tanta coisa que já não consigo fazer…”
E lá nos despedimos com ele a entrar no estabelecimento onde mais dois ou três da mesma idade estão sentados em frente a copos vazios, com olhares distantes.
É assim a velhice, despedirmo-nos aos poucos daquilo que nos dá prazer. 
Talvez não seja assim tão mau ir ficando sem memória.

24 de Março 2012
Benvinda Neves